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Expedição Atacama 2000 – Onde tudo começou

Expedição Atacama 2000 – Onde tudo começou

1843 1382 Márcio Miranda

(Este texto foi escrito em fevereiro de 2014)

Me lembro como se fosse hoje!

Janeiro do ano 2000, recebi a visita do meu amigo Wilson Souza na Convoy, provedor de internet que  eu trabalhava na época, e antes de me cumprimentar já faz o convite:

– Márcio vamos montar uma expedição  para a Patagônia em julho?

Já fazia um tempo que uma viagem nestes moldes vinha tomando forma na minha mente, e o Wilson era a pessoal ideal para fazer dela uma realidade. Montanhista experiente, com várias viagens para o Aconcágua em Mendoza (Argentina), tinha a experiência e a loucura necessária para se atirar numa aventura sem pensar duas vezes. Também era e continua sendo, apesar que faz um tempo que não o vejo, uma pessoa muito bacana, com um ótimo astral e de uma imensa atitude e força interior. Com ele tudo parece mais fácil, e uma empreitada assim fica parecendo uma viagem qualquer.

Depois do convite dele, segue um papo rápido!

– Mas no inverno, não é complicado Wilson? – pergunto para ele meio cabreiro, mas com a mente a mil, pensando na idéia.

– Ahh, então vamos para o Atacama – Ele me responde mais rápido ainda.

– E onde fica?

– Não sei bem, mas acho que é mais perto do que a Patagônia! – Wilson me responde com a tranquilidade que lhe é peculiar.

– Então vamos! – respondo com um frio na barriga, e assim começa a “Expedição Atacama 2000”.

 

Wilson e eu no final da viagem, chegando em Ponta Grossa.

Começamos a planejar o roteiro, montar uma equipe e principalmente conseguir os recursos financeiros para fazer a viagem sair do papel. Confesso que passou algum tempo para cair realmente a ficha que a viagem iria acontecer. Somente em abril é que senti que realmente iríamos fazer a expedição.

Naquela época a internet ainda estava começando e não existia o volume de informações que temos hoje. Google era apenas um site que estava começando, e com poucas informações que ajudassem no planejamento da nossa viagem. Como tínhamos um site na época sobre viagens em nosso provedor de internet  chamado de “Terra e Asfalto”, resolvemos montar uma expedição on-line, onde o projeto era ir colocando notícias sobre a viagem ao longo dos dias de viagem, e assim buscar patrocinadores que viabilizariam economicamente a expedição.

Para esta empreitada, montamos uma equipe composta de 7 pessoas: Wilson Souza – montanhista e nosso guru, Demian – filho do Wilson, também montanhista, Osny Stinghen – mais velho do grupo  com 70 anos de idade, muitos passado junto a trilhas e natureza e o melhor contador de piadas, Ricardo Staut e Henry Milléo – jornalistas e fotógrafos estavam encarregados de produzir material sobre a viagem para o site, além de ótimos companheiros, o Gilberto Kaminski – que é  meu companheiro de viagens até hoje, e se juntou ao projeto um pouco depois  e eu.

 

A equipe reunida

 

E assim, aos poucos as coisas foram acontecendo tudo se encaixando e num dia no final de junho bem cedinho (não me lembro exatamente que dia foi), nos reunimos em frente ao nosso provedor internet a Convoy,  e saímos rumo ao Atacama.

Até então montanhas, neve, deserto, Andes, Atacama eram palavras abstratas, pois não fazia idéia de como eram de verdade. Conhecia apenas das poucas informações conseguidas na internet e mais algumas de um contato que morava na cidade de Salta (norte da Argentina) que gentilmente me respondeu alguns e-mails com minhas dúvidas.

Fomos em 2 carros, uma D20 do Wilson e um Jeep Cherokee do Kaminski, rumo a Foz do Iguaçu e de lá rumo a San Ignácio Mini onde pretendíamos passar a noite. No inicio do caminho, lugares conhecidos até chegarmos em Foz do Iguaçu e de lá entrarmos na Argentina por Puerto Iguazú. A partir deste ponto o desconhecido!

 

Entrando na Argentina

 

Tudo era diferente para mim, o idioma, a estrada, as cidades que íamos passando no caminho e a sensação era incrivelmente ótima. Nunca tinha sentido algo parecido com a adrenalina lá em cima e a sensação de estar descobrindo um mundo novo que passava pelas janelas do carro.

No inicio da noite chegamos em San Ignácio, e a idéia era acamparmos, pois segundo o Wilson, ele conhecia um lugar bom para armarmos o nosso acampamento. Estava imaginando um camping algo assim, mas o maluco encostou nos fundos de um posto de gasolina e ali mesmo armamos as barracas, ele fez uma gororoba que foi a nossa janta e depois de passarmos um tempo tocando violão e cantando fomos dormir, pois o frio era grande naquela noite e o cansaço também.

 

Wilson, Ricardo no violão e eu. A comida foi horrível, mas o astral fantástico.

 

Acordamos no dia seguinte e o cenário era surreal, pois fora das barracas tudo estava branco devido a geada que tinha caído a noite, umas das maiores que vi até hoje. Desmontamos acampamento e fomos conhecer a redução jesuítica de San Ignácio Mini, principal atração do lugar e um ponto de parada imperdível. Visitamos as ruínas com a grama toda branca de geada, o que acabou sendo uma atração a mais, e seguimos viagem. Nosso destino era Roque Saenz Peña, uma cidade localizada no meio da província do Chaco.

 

Geada em San Ignácio Mini

 

San Ignacio Mini – a grama branca de geada

 

No caminho o perdemos um tempo na estrada devido a procissão da Virgem de Itati. Era interessante ver a multidão acampada as margens da rodovia, muitas pessoas em cavalos enfeitados para o evento e várias carroças. Foram quilômetros com este movimento e muitas vezes tivemos que parar, por causa do congestionamento.

 

 

 

Carroças na rodovia

 

Alguns quilômetros mais e passamos pela cidade de Corrientes, onde cruzamos o rio Paraná pela ponte gral Belgrano que liga as províncias de Corrientes e Chaco. Fomos até a cidade de Resistencia, capital da província do Chaco, onde compramos alguns mantimentos para fazermos um churrasco à noite em RS Peña e fomos até um Cybercafé para mandar notícias para o site. É Uma pena que todo este conteúdo que foi produzido ao longo da viagem acabou se perdendo ao longo do tempo. Foi feito muita coisa bacana em termos de texto, mas hoje o que sobrou foram as fotos da viagem em digital e película.

Chegamos na cidade já caindo a noite e fomos procurar o camping municipal para armar o acampamento e fazer o nosso churrasco, pois queríamos esquecer da gororoba feita pela Wilson na janta anterior.

Encontramos o camping, mas foi difícil de encontrar alguém para nos receber no local que parecia fechado. Depois de insistir um rapaz abriu o portão do lugar e montamos o nosso acampamento. Depois de tudo montado, nada melhor que tomar um bom banho para tirar  a “poeira da estrada”,  mas foi só ligar o chuveiro que venho a surpresa .. a água estava gelada. Literalmente foi uma ducha de água fria nos nossos planos, pois simplesmente não tinha como tomar banho naquele frio.

Na cidade existe uma terma, e resolvemos ir até lá para tentar tomar um banho quente, pois nosso último tinha sido em casa antes de sair para a viagem. Chegamos lá e a senhora que nos recebeu super simpática, não só permitiu que tomássemos banho no local, mas também liberou o “banho turco”, uma espécie de sauna úmida. Fomos todos para o banho turco já pensando naquela água quente de uma ducha depois. Só que logo depois veio a noticia, nas duchas também não tinha água quente. Parecia carma mesmo, não era para a gente tomar banho na viagem, a solução foi se virar com o banho turco e uma torneira que tinha dentro da sala.

 

Acampamento em S. Peña

 

Foi no mínimo interessante este banho, e o legal foi depois de todos prontos, nos depararmos com um grupo de pessoas que estudavam português e foram até lá para conversar um pouco com a gente e assim praticar a língua. Batemos um papo rápido com o pessoal e seguimos de volta para o camping, pois todo mundo estava pensando era no churrasco do jantar, que foi muito bom. O astral do grupo estava ótimo e todo mundo pensando que cada vez mais estávamos nos aproximando dos Andes.

 

Pessoal que foi conversar para praticar o português com a gente em S. Peña

 

 

Próxima parada a cidade de Salta, também conhecida como a “La Linda” e localizada aos pés da Cordilheira dos Andes.

 

Mais um dia de estrada, rumo a Salta.

 

Saímos cedo de RS Peña,  pois neste dia teríamos que rodar cerca de 650kms cruzando a enorme reta do Chaco até Salta. Alguns quilômetros depois entramos na reta, e como companhia de viagem tivemos porcos, vacas, cavalos e cabras cruzando a estrada todo o tempo, e ainda com a ajuda de bandos de pássaros e insetos se chocando nos veículos. Ainda hoje este trecho da viagem continua assim, os animais ficam pastando ao longo da rodovia em vários trechos e é necessário ter um cuidado extra com isto.

 

 

Até hoje esta cena é comum na reta que cruza o Chaco.

 

No meio da reta um fato insólito, haviam duas crianças de não mais que 8 anos oferecendo aos poucos carros que passavam um filhote de tamanduá que provavelmente eles ou alguém da família tinha capturado. Resolvemos parar e comprar o filhote para soltar mais a frente e depois de muita negociação conseguimos arrematar o bichinho por 5 dólares. Naquela época a economia da Argentina era toda dolarizada e 1 peso valia o equivalente a 1 dólar.

Colocamos o bicho na D20 e foi uma luta para ele se acalmar até pararmos uns quilômetros a frente para soltar o filhote. Quando este percebeu que estava de volta na natureza, saiu tranquilo e sumiu no meio da vegetação, que se parece muito com a nossa caatinga.

Chegamos em Salta no início da noite e a prioridade era buscar um cybercafé para enviar noticias ao site. Naquela época não era tão simples isto, pois acesso a internet era pouco e lento sem as facilidades de agora. O único local que nos disseram que existia era no Shooping Center  da cidade. Fomos direto para lá e a cena era meio surreal, pois éramos 7 pessoas todas sujas sem banho no meio de um monte de pessoas arrumadas no lugar de compras mais chique da cidade. Mais parecíamos bandidos do que consumidores naquele momento, e os seguranças do local estavam sempre na nossa cola por lá. Mandamos as notícias, fomos comprar umas empanadas que são famosas por lá (aqui faço um parêntesis porque realmente as melhores empanadas que comi até hoje são as feitas em Salta) e fomos para Campo Quijano uma cidadezinha a cerca de 30 kms de Salta já subindo os Andes para acampar e se preparar para no dia seguinte começar realmente a entrar na Cordilheira.

 

Mandando notícias para o site de Salta.

 

Por volta de meia noite, chegamos no camping municipal e depois de armar as barracas fomos dormir, ninguém se animou a tomar banho, até porque os banheiros não eram lá o sinônimo de higiene e limpeza, além do cansaço de um dia longo.

Combinamos de sair bem cedo para aproveitar o dia e por volta de 05:00 já estávamos arrumando as coisas nos carros e pegando a estrada com o coração batendo a mil de emoção porque neste dia o plano era subir os Andes pela “Quebrada del Toro” até a cidade de San Antonio de los Cobres, e de lá seguir até o Paso Sico, cruzar a fronteira como Chile e chegar em San Pedro de Atacama o nosso destino.

Foi emocionante aquele dia, saímos ainda de noite e sentíamos que a estrada subia. Na medida que a luz ia clareando, começamos a perceber os contornos das montanhas nos lados. A estrada foi se tornando estreita e cada vez com mais curvas e o rio Toro ficando cada vez mais abaixo. A Quebrada del Toro é onde está localizado também o trajeto do famoso “Tren de las Nubes” que sai de Salta e vai até o viaduto La Polvorilla a mais de 4.100 metros de altitude e é uma das atrações turísticas da região, pois e considerado um dos trens turísticos que alcança maior altitude no mundo.

Algum tempo depois a dia clareou totalmente e nos vimos no meio de um cenário indescritível. Não tem foto no mundo que consiga demonstrar a grandiosidade do lugar que passávamos. Na verdade toda esta parte da cordilheira é de uma beleza e grandiosidade absurda e mesmo depois de 15 anos e mais de 30 viagens por lá sempre que retorno em uma nova viagem,  não deixo de me emocionar com o visual.

 

Subindo a Quebrada del Toro.

 

Subimos toda a quebrada e algum tempo depois chegamos a Abra Blanca a 4.080 metros de altitude, descendo um pouco até entrar  na região do altiplano ou “puna argentina” como também é chamada. A puna é uma enorme planície que se estende no sentido norte-sul a cerca de 3.600 metros pelo norte argentino seguindo até a Bolívia.

 

 

San Antonio de Los Cobres

 

Por volta de meio dia, chegamos em San Antonio de Los Cobres, a maior cidade da região e mesmo assim muito pequena, animados com a ideia de no final da tarde estar no Chile e no nosso objetivo principal que era chegar no Deserto do Atacama. Fomos até a gendarmeria localizada em Los Cobres, para nos informar sobre as condições do Paso Sico e descobrimos que ele estava fechado devido ao volume de neve e que teríamos que seguir até Susques, outra cidade localizada na puna onde poderíamos cruzar ao Chile pelo Paso de Jama.

Na hora fiquei pensando – Como é que pode? Não vejo nenhum sinal de neve, apenas areia e pedras, como está nevando???

Simplesmente não conseguia entender muito bem a situação, mas enfim a hora era de seguir para Susques a cerca de 100kms por um trecho da famosa “Ruta 40” que nesta região acompanha a puna sentido norte-sul e por muitos quilômetros vai seguindo ao lado de “Salinas Grandes” um dos maiores salares da Argentina.

Chegamos em Susques por volta de 16:00 e seguimos direto para a Aduana existente na cidade para pegar a autorização de seguir para o Paso de Jama e novamente tivemos a noticia de que o Paso também estava fechado pela neve e não tinham previsão de abertura. A decepção foi geral e  na hora fiquei bem desconcertado, parte pela má noticia e parte pela falta de oxigênio, pois estávamos a 3.600 metros de altitude.

Vários pensamentos começaram a passar pela minha cabeça nesta hora… O que fazer? Voltar para Salta? Esperar? E se o Paso não abrisse nos próximos dias? Como fazer com os patrocinadores? Pois afinal o nome da expedição era “Atacama 2000” e se não fossemos até o Atacama seria muito ruim.

Resolvemos montar um acampamento e passar a noite em Susques. Como não existia, camping por lá montamos nossos acampamento perto de um rio seco ao lado do povoado. Conseguimos um pouco de lenha, recebemos a visita das crianças que moravam por lá que estavam achando muito estranho aquele bando de brasileiros acampando lá em pleno inverno, fizemos algo para comer e fomos tentar dormir, pois o baixo astral e a falta de ar derrubaram a moral do grupo.

 

Acampamento em Susques com a visita das crianças da cidade.

 

Assim que o sol se foi a temperatura começou a despencar e durante a noite me lembro de cada vez que punha a mão para fora do saco de dormir sentia algo gelado e úmido. Dormindo não me atentei do que poderia ser mas quando amanheceu, por volta de 05:00, ninguém conseguia mais dormir de frio e para nossa surpresa, todo o interior da barraca estava branco da condensação do ar e todos os líquidos que tínhamos tanto dentro da barraca, quanto nos carros estava congelado.  Imagine um congelador todo com aquele tipo de gelo que se forma nas paredes e teto. Assim estava o interior das barracas.

 

Este acampamento foi complicado.

 

Também o diesel da D20 congelou naquela noite. O Wilson que já conhecia este tipo de ambiente tinha passado a noite na camionete, tentando acordar de tempo em tempo para ligar o motor e evitar isto, mas o sono foi mais forte.

Neste momento o termômetro do Jeep marcava -21 graus e até que o sol aparecesse o frio era algo desconhecido pois exceto o Wilson, ninguém tinha nem chegado perto de um frio assim. Ainda tivemos muita sorte que não tinha vento por lá, mas para se ter uma idéia até os lenços umedecidos que usávamos para a higiene, estavam congelados.

Assim que abriu a aduana, já estávamos por lá tentando saber noticias de Paso e vermos se conseguíamos seguir viagem. Por telefone passamos informações para o site e ficamos por lá junto com alguns camioneiros que também estavam esperando o Paso abrir para seguirem viagem.

Ainda pela manhã escutamos uma grande explosão, que imaginamos deveria ser de alguma mina.  Algum tempo depois começamos a ver uma nuvem cinza muito grande se aproximando e ficamos sabendo que o vulcão Lascar no Chile tinha entrado em erupção. Subimos num morro junto a cidade para tentar ver algo, e depois de um esforço grande para chegar lá o que vimos foi apenas a nuvem cinza vindo de muito longe. O vulcão de onde estávamos deve se encontrar a mais de 100 quilômetros em linha reta e mesmo nesta distância o barulho da explosão foi bem alto. Fiquei imaginando como deveria ter sido o barulho nos lugares mais próximos.

Wilson e eu no morro que subimos em Susques. A nuvem atrás
é da erupção do vulcão chileno Lazcar.

De tarde nossa maré começou a mudar, pois tivemos a noticia de que o Paso seria aberto no dia seguinte. Também descobrimos a casa de uma senhora, a dona Gladys que tinha 2 quartos para alugar e nos mudamos para lá.

No final da tarde conseguimos a autorização para seguir até o Paso na aduana e decidimos sair bem cedo no dia seguinte. Depois de nos instalarmos na casa de dona Gladys, cada um de nos teve a chance de tomar um banho bem quentinho. Que delícia, foi o primeiro banho quente desde que saímos do Brasil a 5 dias atrás. Posso dizer que sem dúvida foi um dos melhores banhos que tomei até hoje.

Resolvi fazer uma janta especial, pois tínhamos levado muito mantimento e a dona Gladys gentilmente nos emprestou a sua cozinha e arrumou uma mesa para nós. Convidamos ela e a sua ajudante Blanca para jantarem com a gente e ficamos até a madrugada conversando entre nós, com a dna Gladys e Blanca, tomando vinho e cantando acompanhados do violão, até o sono bater. Que mudança de astral, um dia atrás a gente mal passando frio nas barracas e sem saber se iriamos continuar para frente e hoje com um quarto com cobertas quentes, banho quente, jantar com direito a mesa, prato, guardanapos, vinho de caixa longa vida e sabendo que no dia seguinte continuaríamos nossa viagem para o Chile. Foi uma noite inesquecível, daquelas que só quem viaja assim tem a oportunidade de vivenciar.

Na casa de dna Gladys (de chapéu), Blanca (blusa amarela), Henry declamando uma poesia
e Demian no violão. Uma noite memorável em Susques.

Coisas com certeza nunca vou esquecer desta noite, a àgua quentinha do banho, o cobertor pesado de lã de carneiro daquela cama e da nossa anfitriã.

No dia seguinte, mesmo tendo todo mundo ido dormir tarde, bem cedinho já estávamos na estrada rumo ao Paso de Jama. No Paso existia uma nova aduana onde era preciso fazer os trâmites de saída da Argentina para alguns quilômetros a frente entrarmos no Chile. De Susques até lá são mais de 100 quilômetros e em 2000 a estrada era de rípio. Atualmente está tudo asfaltado e é um trecho muito bom de se fazer. O ceú estava de um azul incrível como sempre é no inverno nesta região e durante todo o tempo eu ia pensando na neve e imaginando como é que a rota estava fechada por causa da neve se eu só via deserto, salares e montanhas.

 

Fronteira Argentina – Chile

 

Escalador não perde tempo. Se dá para subir vai lá em cima.
Demian e Wilson escalando a “fronteira Argentina – Chile”.

 

Seu Osny sentado com Henry e Ricardo.

 

Saímos da Argentina e entramos no Chile. A paisagem começou a ficar ainda mais desértica pois se na Argentina ainda tinha alguma vegetação no lado chileno só se via areia e pedra caracterizando realmente o deserto. Para quem vai para a região pela primeira vez, é difícil imaginar a diversidade existente na “Puna Argentina”, mas o pessoal que vive na região conhece muito bem a diversidade de flora e fauna e se acostumaram a viver por lá encontrando recursos que passam completamente desapercebidos para nós. Como diz o ditado quem tem pouco dá muito mais valor ao que tem. Mas resumindo deserto mesmo é do lado chileno da cordilheira.

Alguns quilômetros a frente começamos a subir ainda mais chegando a cerca de 4.800 metros de altitude e ali comecei a ter o meu primeiro contato com neve. A principio ela foi surgindo na beira da estrada, nos barrancos e em alguns pontos das montanhas. A frente comecei a ver uma nuvem branca contrastando com o azul do céu que via atrás e a neve foi aparecendo em maior quantidade ao lado da estrada.

 

Sinal de tempo ruim mais a frente

 

Quando fizemos uma curva, o cenário mudou. Tudo estava branco e a neve se acumulava na rodovia, ou melhor por tudo e na frente o céu estava completamente branco. Rodamos mais um pouco e encontramos o tráfego que era muito pequeno todo parado num ponto onde a neve estava mais alta. Que choque neste momento! O pessoal que estava parado estava dizendo que todos teriam que voltar que não tinha como passar.

Nesta hora, a vontade de chegar em San Pedro de Atacama falou mais alto e foi um consenso que deveríamos tentar passar de alguma forma. Pegamos pás que tínhamos levado e começamos a tirar a neve e tentar fazer um caminho para os carros. Foi uma coisa meio de maluco desesperado, porque cavar naquela altitude foi punk.

Mas conseguimos abrir um caminho e passamos com os veículos e seguimos viagem. Foi um trecho bem tenso pois o branco que antes a gente via lá na frente, agora era o “Viento Blanco”, um vento gelado carregado de neve que vinha muito forte.   Eu  que estava doido para conhecer a neve, rapidinho fiquei com vontade de que ela sumisse da frente.

 

Tentando passar no trecho interditado.
Viento Blanco … foi tenso

 

 

Foram quilômetros assim até que começamos a descer e o vento se transformou numa tempestade de areia que nos acompanhou o resto da viagem, mais assustadora que a neve lá de cima em alguns momentos.  E foi assim que chegamos em San Pedro de Atacama nosso destino e base para conhecer o Deserto de Atacama.

Descemos na aduana com máscaras no rosto por causa da areia, mas momentos depois a tempestade passou. Fizemos nossa entrada no Chile e a emoção bateu forte no grupo. Tínhamos chegado no nosso objetivo e agora era encontrar um lugar para ficar e relaxar, além de mandar noticias para o site é claro.

Ricardo e eu enviando noticias para o site de San Pedro de Atacama.
Este era o único cybercafé de San Pedro .. o Café Étnico.

Passamos alguns dias na região conhecendo as principais atrações: Vale da Lua, Vale da Morte, Pukará de Quitor, Laguna Chaxa, Geisers El Tatio e outros pontos. Posso afirmar que foram dias especiais onde tivemos a oportunidade de conhecer uma San Pedro de Atacama que não existe mais, pois a 15 anos atrás o turismo, apesar de já ter muito, ainda não era como nos dias de hoje. Poucos lugares para se hospedar, poucos restaurantes  e muita boa onda do pessoal que vivia por lá.

Demian na Cordilheira do Sal.

 

Hoje em dia San Pedro continua sendo um lugar único no mundo, pois realmente é especial e diferente, mas tem muito mais estrutura para receber o turista e recebe muito mais turistas que em 2000, o que acaba mudando um pouco o lugar. Mas nada que ofusque o encanto do lugar, apenas o astral é que mudou e fico contente por ter a oportunidade de conhecer estas duas San Pedro, pois tenho tido a chance de estar alguns dias lá todos os anos ultimamente.

Sr. Osny, Kaminski e Wilson na Pukará de Quitor.

 

 

Geisers El Tatio.

 

Ainda fui junto com o Kaminski até a cidade de Iquique, a cerca de 500 kms de San Pedro, uma cidade litorânea no oceano Pacífico e uma grande zona franca. Para mim foi outro sonho pois foi a primeira vez que pude botar os olhos neste oceano e o visual do deserto se encontrando com o mar é surreal. A montanha literalmente entra no oceano formando paisagens que são completamente diferentes daquilo que temos como praia aqui no Brasil.

Passamos uma noite em Iquique, fomos conhecer a Zofri (Zona Franca de Iquique) e retornamos a San Pedro por uma rodovia que vem costeando o Pacífico até a cidade de Tocopilla que tem um visual incrível. Chegamos de tarde em San Pedro, nos reunimos com o restante da equipe que tinha aproveitado o dia para explorar a região do vulcão Lazcar (o mesmo que tinha entrado em erupção quando estávamos em Susques) e fizemos nosso último jantar em San Pedro, pois no dia seguinte começaria o nosso retorno pelo mesmo caminho para a Argentina e para a casa.

Estrada Iquique – Tocopilla

Saímos cedo de San Pedro e rapidamente subimos a enorme reta que leva ao Paso de Jama. Para se ter uma idéia San Pedro está a 2.500 metros de altitude e nesta reta rapidamento você chega a mais de 4.000 metros, para depois voltar aos 4.800 onde pegamos a nevasca da ida. Que diferença neste dia, não tinha nem sinal de neve, exceto alguns pontos ao lado da estrada, o que ninguém achou ruim, pois isto significava que o caminho estava livre para voltarmos para casa. Neste dia rodamos muito e chegamos de  noite em Salta, pois queríamos ganhar o máximo de tempo para retornar ao Brasil.

Kaminski e eu com a Cherokee, nossa companheira nesta viagem.

 

No outro dia saímos bem cedo e só paramos quando chegamos na fronteira do Brasil em Puerto Iguazu já de madrugada. Outra emoção grande retornar ao nosso país e apesar do sono uma onda de alegria surgiu quando cruzamos a ponte e vimos o verde e amarelo colorindo a ponte do lado brasileiro. Paramos num hotel para dormir um pouco e no dia seguinte rumo a Ponta Grossa, as nossas casas.

Chegamos no inicio da noite e posso dizer que foi uma das melhores sensações da viagem. Muito melhor que sair para uma viagem é voltar bem e realizado. É rever a família, contar as histórias, comer a comida de casa, enfim voltar a sua vida.

E assim chegamos no final da Expedição Atacama 2000 que acabou sendo um divisor de águas na minha vida e até na minha carreira profissional, porque depois dela não consegui parar de pensar e novas viagens, novas expedições, lugares para conhecer e estradas para rodar. Tanto que acabei mudando de profissão e hoje em dia meu trabalho são as viagens e não consigo me imaginar fazendo outra coisa na vida.

Depois desta vieram outras para outros lugares e outras pessoas. Todas as viagens são sempre especiais,  mas esta vai ficar sempre marcada e guardada num lugar muito especial dentro do meu coração.

 

 

 

Márcio Miranda

Meu nome é Márcio Miranda e já faz algum tempo que viajo de carro por alguns lugares da América do Sul. Gosto da sensação de sair de minha casa até algum lugar distante e retornar é claro. Gosto tanto que hoje em dia esta é a minha profissão. Criei uma pequena empresa chamada Terra e Asfalto Expedições onde monto grupos para fazer este tipo de viagem junto comigo.

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